A juventude moçambicana deve participar, activamente, no processo da construção da paz no país. O desafio foi lançado, esta sexta-feira, 02, pela especialista em contra-extremismo, Ana Mota Teles, num webinar organizado pela Fundação MASC (Mecanismo de Apoio à Sociedade Civil), na cidade de Pemba.

Subordinado ao tema “O Papel dos Jovens no Processo de Construção da Paz e Coesão Social em Moçambique face ao alargamento territorial da violência extremista na província de Cabo Delgado”, o evento tinha por objectivo discutir e partilhar experiências para a construção da paz e coesão social, fortalecendo a capacidade e intervenção dos jovens na mitigação e combate à violência extremista, numa altura em que, pelo terceiro ano consecutivo, a província de Cabo Delgado é assolada por violência extremista que já matou mais de mil pessoas e forçou a deslocação de outras cerca de 300 mil, além da destruição do tecido social e económico da província.

O webinar, que juntou jovens na cidade de Pemba, a capital provincial, enquadra-se nas celebrações dos 28º aniversário da assinatura do Acordo Geral de Paz (AGP), que se assinala da próxima segunda-feira.

Na ocasião, Ana Mota Teles, membro da The Counter Extremism Hub, uma iniciativa global que reúne actores relevantes na área de combate ao extremismo violento, desafiou os jovens moçambicanos a tomarem a dianteira nos processos de construção de paz no país.

Para Ana Teles, os jovens devem abraçar formas de agir que não sejam a guerra. A cidadania crítica e participativa e o diálogo multilateral são algumas das formas de participação activa na construção da sociedade.

Entende a especialista em contra-extremismo que os jovens devem liderar a mudança social, promover a coesão e resiliência social e contribuírem para a construção de um Estado de Direito Democrático e para  a identidade nacional.

A violência, disse, é um ciclo e, por isso, acrescentou, é necessário criar um ciclo de contra-violência.

Importa referir que a Fundação MASC tem vindo a desenvolver e a apoiar  diversas iniciativas em prol do combate à violência extremista no norte de Moçambique. As acções incluem a promoção de narrativas alternativas à violência, através das Artes e Cultura, rádio-novelas e teatros radiofónicos, banda desenhada, entre outras que visam contribuir para a Construção da Paz e Coesão Social, um dos pilares do Plano Estratégico 2020-2030 da Fundação MASC.

Entretanto, Ana Mota Teles defendeu, por outro lado, a necessidade de se apoiar a juventude não só em financiamentos, mas, e sobretudo, em competências para liderar a construção da paz, cidadania e prestação de contas, elementos cruciais para a consolidação de uma democracia.

Teles enfatizou a necessidade de se dar ferramentas aos jovens como forma de criar a mudança que se pretende, sem conflito.

Embora o foco do webinar fosse a juventude, a oradora referiu, durante a sua intervenção, que a construção da paz não é só para jovens, pelo que é necessária intervenção e acção de todos, incluindo as organizações da sociedade civil, que devem encontrar sinergias para fazer a mudança acontecer.

É preciso unir Moçambique

Numa altura em que, além da violência extremista no norte, o país se debate com ataques armados na região centro, concretamente, nas províncias de Sofala e Manica, a especialista em contra-extremismo defendeu que o 4 de Outubro, Dia da Paz, deve servir como momento para relembrar aos moçambicanos sobre o processo de construção da paz.

Para Ana Mota Teles, é necessário encontrar denominadores comuns, que unam os moçambicanos como um único povo.

Argumentou que os conflitos que o país vive devem ser usados como oportunidade para se aprender a ser e a estar num Estado de Direito Democrático, identificando-se as falhas do passado e, trabalhar-se, finalmente, na promoção da cidadania participativa e crítica para que as pessoas, sobretudo os jovens, não adiram aos movimentos que promovem conflitos, porque lhes falta espaço de participação.

Na sua intervenção, a especialista enfatizou, ainda, a necessidade de uma “terapia psicológica” às vitimas directas do conflito, incluindo aquelas que acabam integrando os grupos que protagonizam os ataques.

“Nem toda a gente adere porque quer, alguns aderem porque não querem morrer”, observou Ana Teles, com experiência em acções de contra-extremismo.

Acrescentou que “as vítimas precisam de uma assistência para normalizar o que aconteceu”, sendo necessário começar a “preparar as vítimas e a sociedade para reintegrar as vítimas”.