“Tirei muito aprendizado do conteúdo da radionovela. Percebi que não vale a pena tomar certas iniciativas que nos podem trazer má vida; que não podemos ser aliciados; que é preciso analisar o tipo de amigos que temos; e que não podemos seguir certos caminhos que, amanhã, podem nos trazer arrependimento.” – Nandinho Victor.

 “Devemos ter a capacidade de ser responsáveis, conseguirmos controlar a nossa própria vida, de modo que ninguém possa vir e, simplesmente, nos desviar porque, ultimamente, aparecem malfeitores que, facilmente, nos podem enganar. Mas uma pessoa que tem responsabilidade, tem rumo, sabe o que quer e, dificilmente, alguém poderá enganá-lo.” – Lídia João.

“A radionovela traz uma mensagem educativa, no sentido de desencorajar jovens que arriscam suas próprias vidas para se juntarem ao grupo extremista Al-shabaab, que está ceifando vidas, desnecessariamente, além de minar o desenvolvimento do país e, em particular, da província de Cabo Delgado” – Faruque Mendes.

Estes depoimentos reflectem  o sentimento de vários jovens da província de Niassa, depois de terem escutado a radionovela “Não Vale a Pena – Stop Violência Extremista”, um dos instrumentos desenvolvidos pela Fundação MASC para contribuir para conter o extremismo violento.

Depois de Cabo Delgado e Nampula, a radionovela chegou, em Outubro último, à Niassa, onde jovens daquela província do norte de Moçambique estão a acompanhar e a reflectir, em sessões de escuta, sobre os 25 episódios com mensagens contra a violência extremista.

Feita em parceria com a Albany Associates e a Fundação Aga Khan, e difundida em colaboração com os governos locais, a radionovela “Não Vale a Pena – Stop Violência Extremista”, insere-se no Plano Estratégico 2020-2030 da Fundação MASC, concretamente no Pilar B, que é sobre o Fortalecimento da Paz e Coesão Social.

Inicialmente lançada em língua portuguesa, em 2020, ano em que foi, igualmente, difundida a nível nacional, através da Antena Nacional da Rádio Moçambique, a radionovela está, actualmente, a ser disseminada, através de sessões de escuta, em língua EmaKhuwa, uma das mais faladas no norte de Moçambique.

Composta por 25 episódios, a rádio-novela tem como protagonista o personagem Abdul, um jovem de Nametória, distrito de Angoche, na província de Nampula. Insatisfeito por não conseguir ganhar dinheiro suficiente para ter uma vida decente, Abdul é desafiado por Mohamed, seu amigo de infância, a tentar a sorte em outro local, longe de Nametória.

Contra a vontade da sua mãe, e a preocupação de sua esposa que se encontra grávida, Abdul resolve ir procurar trabalho para as minas de Montepuez, na vizinha província de Cabo Delgado que, desde Outubro de 2017, regista ataques armados.

O que Abdul não sabia é que ali iniciava uma aventura que lhe seria cara. No percurso para Montepuez, os dois amigos são raptados pelos “Al-Shabaabs”, como são, localmente, designados os atacantes. Como se não bastasse, Mahomed acaba por morrer devido  à malária, em plenas matas, depois de os dois terem conseguido fugir de uma base dos “Al-Shabaabs”. Com os dissabores da aventura, Abdul teve de regressar a Nametória, para reiniciar a vida na sua própria terra, longe da guerra.

A partir da estória do Abdul e Mahomed, a radionovela procura desencorajar a juventude, o principal grupo alvo dos movimentos extremistas, a não se deixar vencer pelas dificuldades da vida, ao ponto de enveredar por caminhos incertos e nefastos.

Lichinga

Na cidade de Lichinga, capital provincial de Niassa, as sessões de escuta, que incluem reflexão sobre o conteúdo da radionovela, tiveram lugar entre os dias 13 a 21 de Outubro e contaram com 30 jovens embaixadores da paz da Fundação MASC, dos quais 8 mulheres e 22 homens. Os jovens ora capacitados vão, por sua vez, fazer a réplica das mensagens extraídas da radionovela ao nível dos seus bairros e famílias.

Lídia João, do bairro de Chiuaúla, foi uma das participantes. Além da necessidade de uma maior responsabilidade, outra lição que tirou da radionovela é sobre a organização. “Como jovens, devemos ter a capacidade de organizar a nossa própria vida, as actividades, os planos, e tudo que temos feito no dia-a-dia”, disse.

Para Faruque Mendes, também jovem da cidade de Lichinga, outro ensinamento da radionovela é a necessidade de pensar, em qualquer que seja a situação, mesmo nos momentos mais difíceis. “Seja em aflição ou dificuldade, tenho de, antes, raciocinar no que devo fazer porque, em algum momento, quando estamos aflitos, agimos de forma rápida, para depois nos arrependermos. Então, a radionovela trouxe-me essa reflexão de que, quando estou numa aflição, primeiro tenho de pensar nas alternativas existentes e se a decisão deve mesmo ser tomada de imediato ou não”, explicou.

Quem também saiu das sessões de escuta, em Lichinga, mais sensível contra o extremismo violento, é Celestino Florindo, que até já pensa em como proteger-se contra eventuais aliciamentos.

“Eu aprendi que, antes de tomar qualquer tipo de decisão, devo parar para pensar e repensar porque, se a decisão não for bem pensada, pode ter consequências devastadoras. Escutando a radionovela, pude adoptar alguns mecanismos de defesa em caso de algum dia ser aliciado: eu saberei como me defender e negar”, afirma.

Sanga

Antes de Lichinga, as sessões de escuta da radionovela “Não Vale a Pena – Stop Violência Extremista”, ao nível da província de Niassa, tiveram lugar na vila de Malulu, sede do distrito de Sanga, entre os dias 6 e 12 de Outubro, com a participação de 22 jovens, 12 dos quais do sexo masculino e os restantes 10 do sexo feminino.

Os participantes saíram sensibilizados a não se deixarem levar por promessas ou narrativas triunfalistas e tenebrosas, como as pregadas pelos movimentos extremistas que operam em Cabo Delgado.

Flora Jemusse, uma das participantes das sessões de escuta, em Sanga, congratulou a iniciativa e desafiou a Fundação MASC a realizar outras sessões para abarcar mais jovens. “Aquela informação é muito importante para a sociedade”, afirmou.

O encerramento das sessões de escuta, em Sanga, contou com a presença da secretária permanente (SP) do distrito, Lurdes Goy-Goy, que considerou a radionovela “Não Vale a Pena – Stop Violência Extremista”, como uma iniciativa que veio para despertar os jovens em sentido positivo.

E, aos jovens, a SP deixou uma mensagem: “vocês, em colaboração com o Governo Distrital, poderão trabalhar na disseminação da novela e dar a conhecer, aos jovens de Matchedje e outros pontos do distrito, os aspectos da radionovela”.

Para a facilitadora provincial da Fundação MASC, no Niassa, Elvira Domingos, as sessões de escuta são uma ferramenta crucial para desincentivar os jovens a aderirem a movimentos extremistas, ainda mais numa província vizinha com Cabo Delgado que, há cerca de quatro anos, regista ataques armados.

“Sentimos, também, que os jovens ficaram muito animados com as sessões de escuta e se comprometeram a fazer a réplica das mensagens para outros jovens a nível dos bairros e comunidades”, destacou a facilitadora Elvira Domingos.